jueves, abril 03, 2008

Dr. Pangloss, um equívoco antigo.


Como todos que freqüentam este espaço já devem conhecer, durante o auge do poder onipotente do neodarwinismo na década de 70, Gould e Lewontin (1979) fizeram uma crítica muito inteligente à essa postura apressada e teleológica de muitos cientistas em atribuir toda e qualquer característica biológica uma explicação adaptativa. A essa maneira única de se pensar, colocando a seleção natural como condição a priori, estes autores chamaram “o Programa Adaptacionista”, ou melhor ainda, Panglossionismo, comparando ironicamente os biólogos atuais ao Dr. Pangloss – o pior filósofo possível, personagem de Voltaire (Figura 1).


Bem, apesar deste tema não ser nenhuma novidade nos últimos 50 anos de biologia, eu tive uma surpresa ao encontrar uma discussão muito parecida em 1901. No livro “Regeneration” de TH Morgan, ele dedica um capítulo inteiro a discussão do tema Regenraiton and liability to injury. Nesta oportunidade ele discute a idéia de Weismann de que a regeneração seria uma característica moldada pela seleção natural. É que Weismann colocava que a regeneração ocorria principalmente em animais ou partes de animais mais sujeitas a injúria, e por esta relação, deveria ser uma adaptação em sentido darwiniano. Morgan se opunha ferrenhamente (a algumas vezes com desdenho pessoal**) à essa idéia e passa muitas páginas do livro dando exemplos em todos os filos animais mostrando que geralmente não há tal relação, apontada por Weismann, entre poder regenerativo e freqüência de injúria. Talvez o exemplo mais elegante seja sobre a regeneração que passa em todos os apêndices do crustáceo Eremita, independete se são os que permanecem externos (frequentemente quebrados) ou internos e protegidos pela concha (Figura 2).


O mais interessante é que Morgan critica fortemente duas posturas citadas como sendo de Weismann, que na verdade são críticas muito pertinentes ao neodarwinismo que se cristalizaria nas décadas seguintes.

- Primeiro Morgan reclama do que já seria uma expressão primitiva de Panglossionismo:

“So firm a hold has the Darwinian doctrine of utility over the thoughts of those who have been trained in this school, that whenever it can be shown that a structure or a function is useful to an animal, it is without further question set down as the result of the death struggle for existence. A number of writers, being satisfied that the process of regeneration is useful to the animal, have forthwith supposed that, therefore, it must have been acquired by natural selection”. (negrito do próprio Morgan).


- Em seguida, Morgan faz uma distinção que seria muito confundida posteriormente na doutrina neo-darwinista, entre a seleção natural (num sentido darwiniana, positiva), e uma mera restrição funcional:

The advocates of such a view overlook a very vital part of the problem. If, for instance, it were found, as the result of a large number of observations, that those animals or parts of animals that were most subject to injury had most highly developed the power to regenerate lost parts, it would by no means follow, as Weismann and other Darwinians claim, that this result must have come about by what they call a process of natural selection. They overlook the possibility that unless these animals had from the beginning the power to regenerate they could not continue to live under the adverse circumstance... Many persons confuse this statement with the theory of natural selection, but the two views are as wide as the poles apart”.



** Sobre as idéias de Weismann, Morgan disse: “There are no facts that shown that this statement is not entirely imaginary”. O mesmo senso de humor de Gould e Lewontin (1979), sobre o Panglossionismo.

Abraços,
Gustavo


Referencias Bibliograficas

Morgan TH (1901) Regeneration. New York, MacMillan.

Gould SJ, Lewontin R.: The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A critique of the adaptationist programme. Proc Royal Soc Lond 1979; 205B (1161): 581-598.

6 comentarios:

Chico dijo...

Que incrível as passagens de Morgan! Especialmente esta:

"They overlook the possibility that unless these animals had from the beginning the power to regenerate they could not continue to live under the adverse circumstance... Many persons confuse this statement with the theory of natural selection, but the two views are as wide as the poles apart”.

Algo tão simples é confundido há mais de um século!

Gould e Lewontin citam Romanes em um texto um pouco anterior ao de Morgan (pode ser encontrado no link que tu enviou). É neste texto que Romanes introduz o termo neodarwinismo para se referir as idéias de Weismann e Wallace. Talvez Morgan conhecia o texto. Ou não. O fato é que o nascente neodarwismo tinha críticos mais lúcidos do que nos anos 60, quando a loucura das partículas hereditárias foram materializadas como sequências de DNA e o neodarwinismo imperou.

Anónimo dijo...

MAs porra, consegues explicar como um autor fazendo discussões lúcidas como essa (é importante ressaltar que no livro Morgan não se mostra contrário ao Darwinismo, e apenas ao panselecionismo), acaba se tornando o que se tornou...
afinal de contas, Morgan foi muito responsável por essa materialização que citas.

eu sei que isso já foi motivo de muitas teses, mas qual o teu palpite sobre essa virada inacreditável?

abraço,
Gustavo

Sanders dijo...

Lo intrigante es cómo después de su etapa embriológica Morgan se transformó en pionero de drosophila y campeón de la genética, muy a gusto con los más Weismannianos-seleccionistas. Es interesante entonces preguntarse cómo Morgan compatibilizó o juzgó su etapa previa de estudios de regeneración en su etapa posterior, de campeón de la genética. Por ejemplo, yo tenía entendido que Morgan posteriormente había pensado que la presión de la selección natural era tal, que cualquier gen que presentara una pequeña ventaja se impondría rápidamente en una población, y cualquier pequeña desventaja rápidamente eliminado. Por eso el descubrimiento de la gran variación neutra o casi-neutra cayó como sorpresa.

Es interesante notar que avanzar enel mapeo de los genes es compromenterese con un aspecto especializado del fenómeno de la herencia; es decir, que otros muchos fenómenos de herencia no quedan explicados. Por ejemplo, la inactivación cromosómica o el imprinting.

Vale decir, Morgan pulió y trabajó un importante aspecto de la herencia, pero sólo nos engañaríamos si pensaramaos que entonces o aún hoy se ha explicado de esa forma al fenómeno de la herencia.

Chico dijo...

Eu interpreto que Morgan fez uma opção pragmática. Ao criar a teoria do gene ele separou o fenômeno da herança do fenômeno do desenvolvimento, fornecendo uma explicação somente para o primeiro.
Mas era uma explicação instrumental. A recorrência intergeracional de caracteres se comportava "como se" existissem partículas hereditárias.
O problema é que o a opção pragmática logo se tornou também uma opção ontológica e os genes foram materializados.
Concomitantemente surgiu a genética de populações e sua matemática lidando com estas supostas entidades.
A partir da década de 30, Morgan embarcou no sucesso da teoria do gene e da genética de populações, foi para Califórnia, trouxe Dobzhansky e plantou as sementes da teoria sintética.
Afinal, a teoria do gene forneceu uma teoria da herança que permitiu acabar com o eclipse do darwinismo. Contudo, Morgan jamais me pareceu Panglossiano.

Chico dijo...

Claro, resta saber como Morgan passou de crítico da ontologia preformacionista-reducionista dos que supunham a existência de partículas hereditárias para seu principal representante. Aí convergirão teses epistemológicas, sociológicas e psicológicas. Bem, creio que todas terão um par de razão, mas suspeito que o fato de que sua teoria "funcionava" e explicava uma série de fenômenos que se propunha explicar é a razão básica.

Sanders dijo...

Voy a ser pesadito con Morgan; lo que tenemos es un científico "de carrera" que repite las opiniones más de moda entre sus colegas. Sus sopinioens de seleccion natural son lúcidas, pero realmente son practicamente calcadas de las de muchos de sus contemporáneos como Von Uexkull, Kammerer, etc. Luego ala compañarse de otros simplemente se dio vuelta la chaqueta.

Yo pienso que Morgan era capaz de replicar grandes pensamientos pero no era él mismo un gran pensador. Por ejemplo, Morgan era un experimentalista de tipo burdo, sin ningún aprecio por una visión histórica de la evolución. Eso me parece un chauvinismo de laboratorio frívolo y muy corto de vista